sexta-feira, 21 de agosto de 2009


O ENCANTO NOSSO DE CADA DIA!Ainda bem que o tempo passa! Já imaginou o desespero que tomaria conta de nós se tivéssemos que suportar uma segunda feira eterna?A beleza de cada dia só existe porque não é duradoura. Tudo o que é belo não pode ser aprisionado, porque aprisionar a beleza é uma forma de desintegrar a sua essência. Dizem que havia uma menina que se maravilhava todas as manhãs com a presença de um pássaro encantado. Ele pousava em sua janela e a presenteava com um canto que não durava mais que cinco minutos. A beleza era tão intensa que o canto a alimentava pelo resto do dia. Certa vez, ela resolveu armar uma armadilha para o pássaro encantado. Quando ele chegou, ela o capturou e o deixou preso na gaiola para que pudesse ouvir por mais tempo o seu canto. O grande problema é que a gaiola o entristeceu, e triste, deixou de cantar. Foi então que a menina descobriu que, o canto do pássaro só existia, porque ele era livre. O encanto estava justamente no fato de não o possuir. Livre, ele conseguia derramar na janela do quarto, a parcela de encanto que seria necessário, para que a menina pudesse suportar a vida. O encanto alivia a existência...Aprisionado, ela o possuia, mas não recebia dele o que ela considerava ser a sua maior riqueza: o canto!Fico pensando que nem sempre sabemos recolher só encanto... Por vezes, insistimos em capturar o encantador, e então o matamos de tristeza.Amar talvez seja isso: Ficar ao lado, mas sem possuir. Viver também. Precisamos descobrir, que há um encanto nosso de cada dia que só poderá ser descoberto, à medida em que nos empenharmos em não reter a vida.Viver é exercício de desprendimento. É aventura de deixar que o tempo leve o que é dele, e que fique só o necessário para continuarmos as novas descobertas.Há uma beleza escondida nas passagens... Vida antiga que se desdobra em novidades. Coisas velhas que se revestem de frescor. Basta que retiremos os obstáculos da passagem. Deixar a vida seguir. Não há tristeza que mereça ser eterna. Nem felicidade. Talvez seja por isso que o verbo dividir nos ajude tanto no momento em que precisamos entender o sentimento da tristeza e da alegria. Eles só são suportáveis à medida em que os dividimos...E enquanto dividimos, eles passam, assim como tudo precisa passar.Não se prenda ao acontecimento que agora parece ser definitivo. O tempo está passando... Uma redenção está sendo nutrida nessa hora...Abra os olhos. Há encantos escondidos por toda parte. Presta atenção. São miúdos, mas constantes. Olhe para a janela de sua vida e perceba o pássaro encantado na sua história. Escute o que ele canta, mas não caia na tentação de querê-lo o tempo todo só pra você. Ele só é encantado porque você não o possui. E nisto consiste a beleza desse instante: o tempo está passando, mas o encanto que você pode recolher será o suficiente para esperar até amanhã, quando o passaro encantado, quando você menos imaginar, voltar a pousar na sua janela.Padre Fábio de Melo( Interessante não??!!)

Enfim paredes de leite


Fitava a parede branca em frente de olhos seguros num ponto ou talvez numa área de determinadas dimensões. A atenção não se perdia para além do estuque mas permanecia nesse plano com determinação.O corpo, carente de água, evidenciava a débil nutrição que o abalava. Os cabelos pendiam com dificuldade de tão embaraçados que estavam. A respiração era calma e lenta. Estava imóvel há várias horas. De olhar pregado na parede branca. Sentada no sofá.A voz não saía há vários dias. O silêncio havia tomado conta do compartimento. As mãos, no final de dois braços que pouco mais eram que ossos, estavam tensas. Pousadas nas coxas pareciam prontas para o ataque. As unhas pareciam garras em jeito de ameaça. Os olhos estavam lúcidos. Firmes. Obstinados na parede branca.A malga da sopa arrefecia na mesa de apoio. Havia ficado de véspera a azedar.O rosto lívido desmascarava-se em múltiplas rugas recém formadas. As pupilas dilatadas concentravam-se na parede branca. Retidas.A imobilidade do tronco não deixava transparecer qualquer pensamento. As pernas pendiam para o chão de modo que os pés apenas lhe tocavam com a ponta.Os olhos, invariáveis, cravavam-se na parede branca.As costas hirtas denunciavam o alerta do espírito. O odor da sopa levemente azeda evidenciava-se do cheiro a suor velho que invadira o quarto.Talvez por isso, lentamente, os olhos viajaram da parede branca para a tigela.Ou porque se lembrara que naquele dia distante havia comido sopa. No dia em que a filha partira. Sem saber porquê nem para onde.[=